GREEN KNIGHT


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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma infancia com valores

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Cultura e Lazer

Por vezes havia legítimas esposas à porta à espera da saída dos maridos e das suas amantes

O saxofonista da estalagem do Gado Bravo que ganhava quinhentos escudos por mês para entreter os ricos

Henrique Lopes Cardoso Em Março de 1953 Henrique Cardoso fazia a sua primeira atuação no salão de festas da Estalagem do Gado Bravo, na estrada nacional 10, entre o Porto Alto e Vila Franca de Xira. Ganhava quinhentos escudos por mês. Ao som da orquestra onde tocava viu dançar ricos, famosos e muitos casais adúlteros.

Edição de 2011-08-25

Henrique Cardoso nasceu em 1926, em Samora Correia, concelho de Benavente, e foi um dos últimos músicos a tocar na antiga Estalagem do Gado Bravo, local de pernoita para alguns e espaço de divertimento para os mais abastados que lá procuravam o convívio nas décadas de 50, 60 e 70. Numa época extremamente conservadora havia quem conotasse a estalagem como um local de promiscuidade. O antigo músico tenta amenizar. “Nunca foi um bordel. Era uma casa de público muito selecionado”, refere. Mas mais à frente acaba por dizer que, por vezes, havia legítimas esposas à porta, à espera de maridos adúlteros.

Cada atuação durava cinco horas. O ordenado mensal era de 500 escudos. Uma compensação muito boa naquela época. Subiu pela primeira vez ao palco do salão principal da estalagem em Março de 1953. Tocou durante quase 20 anos até ao declínio de uma casa que foi ponto de encontro de toureiros, empresários, ganadeiros e lavradores e casais. Na unidade hoteleira da reta do cabo pernoitaram grandes figuras da cultura, da política, da arte, do toureio e do desporto. Foi no Gado Bravo, por exemplo, que o jornalista Baptista-Bastos entrevistou Paul McCartney, a 11 de Junho 1965. O Betle que estava a caminho do Algarve e que terá escrito a letra da canção Yesterday nessa viagem, estava com Jane Asher mas o entrevistador não a conseguiu identificar.

O matador de toiros José Júlio começou a dar nas vistas no tentadeiro da estalagem. Amália, Alfredo Marceneiro e Hermínia Silva passaram por lá. Por vezes a realidade confunde-se com a ficção de tal maneira que há quem diga que também lá dormiu a rainha de Inglaterra.

Inaugurada em 1950, há vinte e três anos que a antiga estalagem está abandonada. Já nada resta do pátio espaçoso que tinha no centro e do pequeno tentadeiro situado nas traseiras. O salão onde Henrique Cardoso tocava, que era ornamentado com motivos ribatejanos, é hoje uma pilha de destroços porque o telhado abateu. “Fazíamos passagens de ano fantásticas onde marcavam presença as famílias importantes da zona, como a Vaz Guedes.”, recorda.

Diz que a orquestra nunca teve que parar por causa de distúrbios. “Mesmo quando havia bebedeiras era tudo muito civilizado”, conta. Os seus 85 anos já não lhe permitem lembrar-se se houve políticos da praça a fazer más figuras no salão principal. Admite que tal poderia ter acontecido. “As pessoas vinham para se divertir, por isso ninguém falava lá fora do que se vivia aqui dentro”, refere. As músicas que tocava embalaram bastantes casais. “Alguns homens tinham as legítimas mulheres na rua à espera deles e das amantes”, confessa com um sorriso.

A forma como eram tratados os clientes de diferentes classes sociais estava perfeitamente estabelecida. Quando Henrique ia tocar nunca entrava pela porta da frente. Essa era reservada a clientes. “Entrava sempre por uma porta do lado direito, próximo de uma pequena taberna”, confessa. Os clientes mais ricos tinham direito a que lhes abrissem a porta. Os menos ricos tinham que a empurrar.

O último saxofonista do Gado Bravo é fã de Wagner e Beethoven. Adora ópera. Ia para os “concertos” na estalagem - como os chamava - na companhia de uma banda que se fazia transportar num velho Citroen dos anos 30. Às vezes até davam boleia a clientes que iam para lá.

“Um dia um dos nossos músicos desapareceu dentro da estalagem. Tínhamos de começar a tocar e não o encontrávamos em lado nenhum. Corremos tudo, quartos, salões, casas de banho... Acabámos por o encontrar na cozinha a tentar ganhar confiança com uma empregada. Já estavam de mãos dadas e tudo”, conta com um sorriso o homem que hoje olha para o saxofone tenor com a tristeza de quem já não pode tocar por motivos de saúde.

Ainda assim foram 70 anos de ligação à música na estalagem e na Sociedade Filarmónica União Samorense (SFUS). Pela dedicação à música e ao associativismo de Samora Correia recebeu o prémio Carlos Gaspar em 2009, instituído pela Junta de Freguesia. Começou por ser aprendiz de carpinteiro e deu serventia a pedreiros. Trabalhou na Herdade das Silveiras. Fez parte da direção da SFUS e foi cofundador da cooperativa dos consumidores. Chegou a ser deputado municipal da CDU. Revolta-se quando ouve dizer que no tempo de Salazar é que a vida era boa. “São pessoas que nunca sentiram a privação da liberdade”, remata. “Nunca tive complexo nenhum em tocar para as pessoas ricas da zona. Fico triste quando hoje vejo o Gado Bravo naquele estado e faz-me imensa pena ver aquilo entregue aos bichos”, lamenta.

A admiração por Alves Redol

Na sua casa de Samora Correia Henrique Cardoso mostra um dos seus livros mais estimados: “Fanga”, de Alves Redol. “Para o Henrique com a lembrança amiga do Alves Redol”, escreveu o autor em jeito de dedicatória na primeira página. “Conheci o Redol por intermédio do Arquimedes da Silva Santos. Era uma pessoa fantástica com quem podíamos passar longas horas a conversar”, recorda a O MIRANTE. Tem todos os seus trabalhos. No mesmo livro onde Redol lhe deixou uma dedicatória guarda recortes de jornal com a notícia da morte do escritor vila-franquense. “Fui ao funeral mas aquilo não parecia o funeral de um homem simples. Foi o funeral de um herói”, recorda.

Semanário Regional O MIRANTE.

Ao dividir  com os meus amigos e amigas este artigo,quero-vos informar, de que aprendi a crescer na casa deste senhor e sua família até aos dez anos.
Jrom







6 comentários:

elvira carvalho disse...

Um texto muito interessante que me deu a conhecer um homem de que penso nunca tinha ouvido falar. Obrigada pela partilha.
Um abraço e continuação de bom Domingo

Green Knight disse...

Elvira sou um incondicional admirador do homem comum e desconhecido português.
Sempre foram estes, que nas horas difíceis fizeram renascer Portugal das cinzas,não por palavras mas sim pelos seus feitos.Os Lopes Cardoso,apesar de serem uma família com alguns recursos, nunca deixaram de proteger, educar e estarem presentes nas dificuldades com os mais necessitados, sem terem necessidade de se alardearem em proveito próprio.
Samora Correia reconhece-os e eu não os esqueço.
Beijinho
jrom

Maria disse...

Meu amigo
É tão bonito ver alguém grato!
Cada vez se vê menos.
É um dos muitos valores, que nos ensinavam em meninos e não perdíamos nunca.
Hoje não sabem o que é gratidão.
Sou grata à vossa amizade, tua e da Mariana.
Beijos para os dois
Maria

Green Knight disse...

Humildemente te agradeço Maria, por nos dirigires essas valiosas palavras.
Hoje há uma grande confusão entre:reconhecimento e subserviência.Felizmente que me fizeram sempre entender as palavras.Há quem pense que agradecer é ficar mais pequeno.Modernices!...
Beijinho Maria e bom fim de semana.

Zé do Cão disse...

os ricos e os que se faziam passar por isso,.



Abraço

Zé, passa lá pelo Burgo

Kim disse...

Já muitas vezes falámos nisto. Eu sei que é verdade!
Agora, saudade é tudo o que existe!
Abraço meu amigo