GREEN KNIGHT


Este Blog destina-se à partilha da vida e de algumas experiências que vou partilhando com os amigos que aqui resolvam entrar e deixar o seu rasto. São todos bem-vindos e espero que gostem das coisas que vou postando, dentro das minhas possibilidades.Gostaria que este Blog fosse mesmo um campo de papoilas, em que possamos trotar felizes. E conto com as vossas agradáveis visitas! Um abraço a todos!







terça-feira, 24 de maio de 2011

A CONQUISTA DE LISBOA











O horário de trabalho era violento, quando entrava ao serviço às oito horas da manhã e terminava às vinte e quatro horas, com duas horas de intervalo.

Havia outros dias que entrava às treze horas e com as mesmas duas horas de intervalo, durante a tarde terminava quando fechava, que era às três e trinta da manhã.


Sem transporte tinha de esperar pelo primeiro eléctrico que era às cinco da manhã, a noite de Lisboa era um fascínio, os espectáculos, o movimento, os anúncios luminosos cheios de movimento.
Também fazia o meu lucro no exterior, pois a pedido de clientes comprava bilhetes para qualquer espectáculo, ou marcava para uma qualquer casa de fados.
A puberdade já vinha chegando e nós “os grooms” líamos até nas pedras da calçada. Conseguir cordialidade até com algumas das conhecidas senhoras com algum nível, da mais velha profissão do mundo, também era muito rentável, quando fazíamos de elo de ligação, com mensagens escritas entre as duas parte interessadas.
Sempre me trataram com respeito e também o exigiam, aprendi muito, pelas recomendações que me faziam com os cuidados de saúde, a prostituição nessa altura era legal e tinha regras muito definidas.
Para nós, à parte da malandrice, e da descoberta daquela vida, não éramos mais do que crianças que por força das circunstâncias tínhamos um contacto precoce com a vida real.
E foi graças ao facto de trabalhar onde estava, que um dia a vida me permitiu acender um charuto ao General Humberto Delgado na Solmar, quando este já andava em campanha eleitoral, foi difícil esgueirar-me até à sua mesa mas consegui.
As referências da época eram o Circo Arriola Paramês, que estava no Coliseu dos Recreios, no universo dos filmes, o cinema Odeon recebia o Joselito para dar autógrafos e estreava o filme O Pequeno Rouxinol, enquanto O Condes estreava a obra de Victor Hugo, Os Miseráveis e no Éden estreava A Ponte Rio Kwai.
Comprava muitos livros de banda desenhada na época e sempre li um pouco devido às viagens demoradas nos eléctricos, depois quando já tinham sido lidos vendia-os à entrada do cinema Olímpia, o que me permitia comprar bilhetes para as sessões contínuas de filmes westerns.
Muita vez o Sr. Belarmino Fragoso, que foi dos maiores pugilistas de sempre em Portugal me engraxou os sapatos, só falo nisto, para estabelecer algum paralelo em relação aos estatutos dos atletas de hoje.
Nos pós guerra principalmente depois dos anos sessenta, a expansão da indústria cultural acentuou-se, na base dessas transformações, pode-se mencionar a influência de base material, para geração de bens culturais e a multiplicação dos campos de produção em diferentes regiões do planeta, que redundou no abandono da indústria cultural.
Com as dificuldades económicas, a pouca disponibilidade existente neste sistema de vida desgastante, estas actividades deixaram de ter a expressão que tinham, até porque a TV e os meios tecnológicos de que muita gente usufrui, retiram a possibilidade de certas artes serem vistas “in loco” a troco das novas tecnologias, que possuem nas suas casas.

continua





4 comentários:

Kim disse...

E assim os putos iam aprendendo a lei do desenrasca. Era uma vida díficil mas que deixa muita saudade, desde o saltar do eléctrico em andamento até ao Pirata dos Restauradores.
Bons tempos amigo. Estás a ir muito bem no desenvolvimento do Curriculum
Abraço amigo

Je Vois la Vie en Vert disse...

Outros tempos em que, se calhar, a vida tinha mais sabor por não ter que se preocupar com todos os problemas que nos são apresentados nos telejornais...
Beijinho amigo
Verdinha

SEVE disse...

Que maravilha.

Mas ao apanhares o primeiro eléctrico tinhas a vantagem de ter um bilhete a preço muito reduzido e que dava para a viagem de ida e volta; não sei te lembras do célebre BILHETE OPERÁRIO,um bilhete cor de rosa que custava creio que dois cruzados (oito tostões), e que era vendido a quem viajasse de eléctrico antes das oito da manhã.

Bela, direi mesmo excelente rectrospectiva esta.
Um abraço

SEVE disse...

Não resisto a mais este comentário.

Vejam a vida deste menino, que, ao fim e ao cabo, foi a minha e a dos meninos (que nunca foram crianças) da minha geração, vejam o que é uma vida dura, e queixa-se esta gente à rasca, que tem pelo menos dois telemóveis da última geração sem os quais são incapazes de viver.............

Bem dizia o Prof. Lobo Antunes - uma escola difícil torna a vida fácil, do mesmo modo, digo eu que a escola fácil torna a vida difícil!